segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O ENTARDECER

Reflexões sobre Acupuntura e Psicologia
Quando o Sol alcança seu máximo ponto no céu ou zênite ele começa a declinar e caminhar em direção as entranhas de Gaia para iluminar a sua escuridão.
Podemos olhar estes movimentos do mundo como movimentos dos homens, uma dança na busca do equilíbrio entre o máximo e o mínimo, entre nossos excessos e faltas.
Alto e baixo, fora e dentro, o yang e o yin são a eterna lei da dualidade deste universo. Nós estamos sempre a provocar esta lei, sempre a cometer desmedidas e com isso o movimento organizador e homeostático do Cosmos nos faz lembrar o quão frágeis e humanos nós somos através das doenças e infortúnios.
De acordo com os ciclos da natureza há o momento do entardecer. Observamos o entardecer todos os dias. Esperamos este momento para podermos ir para casa descansar, diminuir nosso ritmo. Podemos associar o entardecer ao elemento Terra que na acupuntura está relacionado com o final do verão, com baço, pâncreas e o estomago. Sua cor é o amarelo e o saber de ressonância deste elemento é o doce.
Terra que pisamos, nossa base e sustento. É aqui que a energia sofre uma transformação, ela fica mais estável antes de se recolher no interior. Pensando neste movimento de recolhimento lembramo-nos da noite que é simbolizada pelo Inverno, representada pelo elemento Água - energia em potencial adormecida em nosso âmago para despertar na primavera.
As pessoas vivem como se não existisse este momento de declínio, de descida e de interioridade. Cometem excessos de todos os tipos e não querem pagar o alto preço do desequilíbrio. Vivemos em um momento da nossa civilização em que as faltas e excessos estão escancarados para todos. O excesso de consumo, por medo da falta está desencadeando um grave desequilíbrio nas nossas forças reguladoras.
Na sociedade atual uma busca frenética por aprovação e a idealização da própria imagem tem mais valor que a busca de si mesmo. Tudo isso para garantir autoestima e reconhecimento alheio. Com isso a busca da totalidade fica comprometida, pois não é possível agradar dois senhores ao mesmo tempo.
Acredito que é deste movimento que nascem as desmedidas, já que é impossível equilibrar esta equação – agradar o outro versus ser si mesmo. Comprometemos nosso equilíbrio em busca de aprovação e toda a sorte de sintomas começa a brotar aqui e ali.
Os sintomas são nossos aliados, pois são eles que vão deflagrar nossa ferida interior e escancarar este distanciamento do nossoSelf. Em Medicina Chinesa isso é relatado como estar longe do Tao. Como diz o sacerdote e mestre taoísta contemporâneo Wu Jyh Cheng em sua interpretação do Tratado sobre a união oculta: “Primeiro, a pessoa traz o céu para dentro de si, depois o céu leva a pessoa à plenitude”. Se estivermos em comunhão com o Universo saberemos o caminho que devemos seguir.
O caminho do céu, essa ligação com o Self é invisível, não podem ser vistos com os olhos, não podem ser escutados com os ouvidos. Esta ligação pode ser sentida, apenas, no mais profundo de nossos corações. Por isso a grande importância de estarmos tranquilos e calmos em um movimento de introspecção.
Chamo este movimento de interiorização de o entardecer pela sua semelhança com a natureza. Ao entardecer sentimos a necessidade de voltar para casa, ficar recolhidos, descansar e refletir sobre nosso dia. Depois chega a noite e com ela nossa estrela guia surge resplandecente no céu. Como vocês podem observar somos sempre conduzidos pelo céu, desde tempos remotos até os dias de hoje, simbolicamente ou literalmente, o céu é nosso guia.
Essa tão sonhada e desejada ligação com o Self pode ser alcançada. De acordo com a filosofia oriental e também com a psicologia, o primeiro e mais importante passo nesta direção é sermos sinceros.
Sinceridade é o elemento central e é o ponto de partida de toda transformação. Esta virtude de acordo com a Medicina Chinesa está ligada ao elemento Terra. Todos os 5 elementos da Medicina Chinesa se apoiam na terra. A pessoa sincera se expressa com transparência, não existem intenções incorreta e não reveladas em suas ações.
Podemos observar hoje que as pessoas agem através da esperteza ou da inteligência sem sabedoria em seu próprio benefício. Somente com a sinceridade e com um coração desprovido de intenções sombrias somos capazes de frear este tipo de comportamento tão comum.
Se formos sinceros saberemos nossos limites e não cometeremos as desmedidas. Se estivermos conscientes das nossas intenções obscuras não reveladas seremos mais naturais, espontâneos e o equilíbrio voltará a reinar com facilidade em nossa vida.
Nós seres humanos estamos entre o “Céu e a Terra”. Isso quer dizer que devemos voltar nossa mente para o alto, para o celestial e manter nossos pés bem firmes na Terra para ficarmos enraizados e estáveis. E somente com estabilidade é possível gerar mudança e crescimento.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Notícias - Acupuntura e Psicologia


Notícias

02/05/2013 - 18:26, atualizado em 02/05/2013 - 18:28

LINK da notícia: http://site.cfp.org.br/acupuntura/

Acupuntura


CFP encaminha recurso ao STF pedindo reformulação da decisão do STJ

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) enviou um recurso especial ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a reformulação da decisão divulgada esta semana pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), decidindo que os profissionais da Psicologia não podem utilizar a acupuntura como método ou técnica complementar de tratamento.
Atualmente, não há Lei no Brasil regulamentando a acupuntura e, por isso, sua prática independe da autorização de qualquer conselho profissional. Portanto, a discussão da matéria continua e caberá ao STF um posicionamento final sobre o exercício da atividade entre psicólogas (os).
De acordo com a Sociedade Brasileira de Psicologia e Acupuntura (Sobrapa), a estimativa é de que existam aproximadamente quatro mil psicólogas (os) praticando essa atividade no Brasil. O Ministério da Saúde reconhece a acupuntura na atenção básica exercida por profissionais da Psicologia. O órgão promoveu, inclusive, concursos para provimento de cargos nos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), onde psicólogas (os) acupunturistas atuam em equipes multiprofissionais.
O STJ alegou que a acupuntura não está prevista na lei que regulamenta a profissão de psicóloga (o), a Lei 4.119/62. A ação corroborou com o acórdão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), que pedia a anulação da Resolução 5/2002 do Conselho Federal de Psicologia (CFP). A norma amplia o campo de atuação dos profissionais da área, ao possibilitar a utilização da acupuntura nos tratamentos.
A turma que julgou o assunto entende que é impossível que psicólogas (os) estendam seu campo de trabalho por meio de resolução administrativa, pois suas competências estão fixadas em lei que regulamenta o exercício profissão. De acordo com o grupo, só a lei pode ampliar a competência profissional regulamentada. Para eles, o exercício da acupuntura depende de autorização legal expressa, por ser idêntico a procedimento médico invasivo.
Em resposta a essa acusação, o recurso elaborado pelo CFP explica que “o psicólogo, a partir das atribuições profissionais estampadas na Lei nº 4.119/62, utiliza a acupuntura como recurso complementar a sua atividade profissional. E é bem por isso que o Conselho Federal de Psicologia editou a Resolução CFP nº 005/2002, conforme competência que lhe é delegada pelo art. 1º da Lei nº 5.766/71 [criação do Sistema de Conselhos]”.
A acupuntura é um método terapêutico milenar, parte integrante da Medicina Tradicional Chinesa. Nessa perspectiva, é possível afirmar que a prática, cuja base é filosófica, não é utilizada pela (o) psicóloga (o) para tratamento médico ou clínico, como sugere a decisão do STJ, mas, sim, a partir de um diagnóstico psicológico. “Se um paciente chegar ao consultório da (o) psicóloga (o) para tratar de uma cardiopatia, o profissional não poderá se utilizar da acupuntura para tal finalidade, e encaminhará o paciente a um médico”, diz o recurso.
O recurso especial destaca, ainda, que se a procura pelo profissional de Psicologia for para tratar problemas afetivos, familiares, emocionais ou de ajustamento, a (o) psicóloga (o), utilizando-se do diagnóstico psicológico, poderá utilizar a acupuntura como recurso complementar ao atendimento antes do início da terapia.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

DEPRESSÃO


Revista Brasileira de Psiquiatria

Print version ISSN 1516-4446

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.21  s.1 São Paulo May 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44461999000500003 

Conceito e diagnóstico

José Alberto Del Porto1



RESUMOEste artigo revê o conceito de depressão e a nosologia contemporânea dos estados depressivos e seus diferentes subtipos. São discutidos aspectos relativos ao curso (formas agudas vs crônicas da doença, padrão sazonal), características fenomenológicas (melancolia, quadros psicóticos, quadros atípicos, formas catatônicas) da doença, assim como a importância e o significado das alterações psicomotoras para o diagnóstico das chamadas depressões "endógenas" ou "vitais", de acordo com trabalhos contemporâneos (como os de Parker e Widlöcher). Este trabalho aborda também as fronteiras da depressão com o transtorno bipolar, os transtornos de personalidade, a desmoralização e os estados de luto normal, assim como os limites com outras doenças e estados induzidos por drogas.



Significados do termo "depressão"
O termo depressão, na linguagem corrente, tem sido empregado para designar tanto um estado afetivo normal (a tristeza), quanto um sintoma, uma síndrome e uma (ou várias) doença(s).
Os sentimentos de tristeza e alegria colorem o fundo afetivo da vida psíquica normal. A tristeza constitui-se na resposta humana universal às situações de perda, derrota, desapontamento e outras adversidades. Cumpre lembrar que essa resposta tem valor adaptativo, do ponto de vista evolucionário, uma vez que, através do retraimento, poupa energia e recursos para o futuro. Por outro lado, constitui-se em sinal de alerta, para os demais, de que a pessoa está precisando de companhia e ajuda. As reações de luto, que se estabelecem em resposta à perda de pessoas queridas, caracterizam-se pelo sentimento de profunda tristeza, exacerbação da atividade simpática e inquietude. As reações de luto normal podem estender-se até por um ou dois anos, devendo ser diferenciadas dos quadros depressivos propriamente ditos. No luto normal a pessoa usualmente preserva certos interesses e reage positivamente ao ambiente, quando devidamente estimulada. Não se observa, no luto, a inibição psicomotora característica dos estados melancólicos. Os sentimentos de culpa, no luto, limitam-se a não ter feito todo o possível para auxiliar a pessoa que morreu; outras idéias de culpa estão geralmente ausentes.
Enquanto sintoma, a depressão pode surgir nos mais variados quadros clínicos, entre os quais: transtorno de estresse pós-traumático, demência, esquizofrenia, alcoolismo, doenças clínicas, etc. Pode ainda ocorrer como resposta a situações estressantes, ou a circunstâncias sociais e econômicas adversas.
Enquanto síndrome, a depressão inclui não apenas alterações do humor (tristeza, irritabilidade, falta da capacidade de sentir prazer, apatia), mas também uma gama de outros aspectos, incluindo alterações cognitivas, psicomotoras e vegetativas (sono, apetite).
Finalmente, enquanto doença, a depressão tem sido classificada de várias formas, na dependência do período histórico, da preferência dos autores e do ponto de vista adotado. Entre os quadros mencionados na literatura atual encontram-se: transtorno depressivo maior, melancolia, distimia, depressão integrante do transtorno bipolar tipos I e II, depressão como parte da ciclotimia, etc.

Descrição clínica
As descrições feitas por Kraepelin, dos estados depressivos e maníacos, na oitava edição de seu tratado, são insuperáveis pela clareza e precisão. Felizmente encontra-se disponível uma reedição recente desse trabalho, em tradução inglesa,1 o que torna sua leitura mais facilmente acessível. De muito interesse é o artigo clássico de Falret, sobre a "folie circulaire", marco na história da doença maníaco-depressiva, datado de 1854 e recentemente republicado pelo American Journal of Psychiatry, com comentários de Marc Sedler.2 Igualmente interessantes são as descrições de Bleuler, em seu Tratado de Psiquiatria (atualizado por Manfred Bleuler), que conta com traduções em espanhol e mesmo em português.3

Aspectos gerais
Embora a característica mais típica dos estados depressivos seja a proeminência dos sentimentos de tristeza ou vazio, nem todos os pacientes relatam a sensação subjetiva de tristeza. Muitos referem, sobretudo, a perda da capacidade de experimentar prazer nas atividades em geral e a redução do interesse pelo ambiente. Freqüentemente associa-se à sensação de fadiga ou perda de energia, caracterizada pela queixa de cansaço exagerado. Alguns autores4,5 enfatizam a importância das alterações psicomotoras, em particular referindo-se à lentificação ou retardo psicomotor. Este tópico será abordado mais detidamente no item referente à conceituação da "melancolia".
No diagnóstico da depressão levam-se em conta: sintomas psíquicos; fisiológicos; e evidências comportamentais.

Sintomas psíquicos
• Humor depressivo: sensação de tristeza, autodesvalorização e sentimentos de culpa.
Os pacientes costumam aludir ao sentimento de que tudo lhes parece fútil, ou sem real importância. Acreditam que perderam, de forma irreversível, a capacidade de sentir alegria ou prazer na vida. Tudo lhes parece vazio e sem graça, o mundo é visto "sem cores", sem matizes de alegria. Em crianças e adolescentes, sobretudo, o humor pode ser irritável, ou "rabugento", ao invés de triste. Certos pacientes mostram-se antes "apáticos" do que tristes, referindo-se muitas vezes ao "sentimento da falta de sentimentos". Constatam, por exemplo, já não se emocionarem com a chegada dos netos, ou com o sofrimento de um ente querido, e assim por diante.
O deprimido, com freqüência, julga-se um peso para os familiares e amigos, muitas vezes invocando a morte para aliviar os que o assistem na doença.
São freqüentes e temíveis as idéias de suicídio. As motivações para o suicídio incluem distorções cognitivas (perceber quaisquer dificuldades como obstáculos definitivos e intransponíveis, tendência a superestimar as perdas sofridas) e ainda o intenso desejo de pôr fim a um estado emocional extremamente penoso e tido como interminável. Outros ainda buscam a morte como forma de expiar suas supostas culpas. Os pensamentos de suicídio variam desde o remoto desejo de estar simplesmente morto, até planos minuciosos de se matar (estabelecendo o modo, o momento e o lugar para o ato). Os pensamentos relativos à morte devem ser sistematicamente investigados, uma vez que essa conduta poderá prevenir atos suicidas, dando ensejo ao doente de se expressar a respeito.
• Redução da capacidade de experimentar prazer na maior parte das atividades, antes consideradas como agradáveis. As pessoas deprimidas podem relatar que já não se interessam pelos seus passatempos prediletos. As atividades sociais são freqüentemente negligenciadas, e tudo lhes parece agora ter o peso de terríveis "obrigações".
 Fadiga ou sensação de perda de energia. A pessoa pode relatar fadiga persistente, mesmo sem esforço físico, e as tarefas mais leves parecem exigir esforço substancial. Lentifica-se o tempo para a execução das tarefas.
 Diminuição da capacidade de pensar, de se concentrar ou de tomar decisões. Decisões antes quase automáticas parecem agora custar esforços intransponíveis. Um paciente pode se demorar infindavelmente para terminar um simples relatório, pela incapacidade em escolher as palavras adequadas. O curso do pensamento pode estar notavelmente lentificado. Professores experientes queixam-se de não conseguir preparar as aulas mais rotineiras; programadores de computadores pedem para ser substituídos pela atual "incompetência"; crianças e adolescentes têm queda em seus rendimentos escolares, geralmente em função da fatigabilidade e déficit de atenção, além do desinteresse generalizado.