segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)


Por que o TDAH sustenta polêmicas?


A especialista Marilene Proença fala sobre o diagnóstico do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade e a questão da medicalização

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) sustenta polêmicas das mais diversas. Primeiro: como se pode afirmar que indivíduos, essencialmente crianças, com comportamento agitado ou displicente são acometidas por um transtorno, sem considerar uma análise mais profunda que leve em conta a faixa etária, o contexto social e mesmo o grau de desenvolvimento condizente à infância?

O NET Educação convidou a especialista Marilene Proença, professora da área de Psicologia Escolar, coordenadora do Laboratório Interinstitucional de Estudos e Pesquisas em Psicologia Escolar (LIEPPE) e do programa de Pós Graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano da Universidade de São Paulo (USP) para esclarecer as questões que giram em torno do Transtorno.

A especialista aponta que há muita imprecisão nos diagnósticos, uma vez que os critérios de avaliação são subjetivos e, por conta disso, condena a medicação prescrita em grande parte dos casos: “a medicalização cria uma falsa facilitação de conduta nessas crianças”. Confira a entrevista na íntegra.

NET EDUCAÇÃO – O que é o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)?

Marilene Proença – De início, temos aqui uma polêmica. Toda e qualquer tentativa de definição do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é feita baseada em sintomas, ou seja, em comportamentos manifestados em determinados contextos. O suposto transtorno é descrito na sua sintomatologia pela Associação de Psiquiatria Norte Americana por meio do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV) que se restringe ao trabalho de listar determinados sintomas escolhidos como aqueles que o constituirão. Isso gera muita discussão. Por exemplo, quando se está diante de uma doença de cunho genético, caso da síndrome de Down, se tem certeza que há uma disfunção do cromossomo 21 e, por isso, são atestados determinados sintomas no paciente.

Agora, quando se trata do Déficit de Atenção e Hiperatividade, a verdade é que não há consenso sobre os sintomas que poderiam justificar o transtorno. Há mais de um século se pergunta o que comporia essa modalidade de transtorno, tendo a sua definição modificada tanto no nome do suposto transtorno quanto nas características de comportamento que levariam a diagnosticá-lo.

Hoje, o que os psicólogos e psiquiatras têm utilizado largamente para realizar o diagnóstico é o SNAP-IV, um questionário baseado nos sintomas apresentados pelo DSM-IV, para sinalizar a existência do TDA e da Hiperatividade. São 18 questões, nove direcionadas para a sondagem do déficit de atenção e outras nove para a hiperatividade, avaliadas de acordo com os seguintes critérios: “nem um pouco, só um pouco, bastante ou demais”.

Se a criança ou adolescente for enquadrado em seis questões como “bastante ou demais”, em duas situações de vida, já pode ser diagnosticado como portador do transtorno ou da hiperatividade. No entanto, as questões são respondidas por adultos e permitem alto grau de subjetividade nas respostas. Vou exemplificar com uma delas. Um dos itens do questionário diz o seguinte: a criança ou adolescente “Perde coisas necessárias para atividades (ex: brinquedos, deveres da escola, lápis ou livros)”?. O que é pouco, bastante ou demais, nesse caso? Além disso, qual de nós não passa por situações de esquecimento diariamente? Ou seja, as perguntas são genéricas, não consideram o contexto em que os comportamentos estão sendo avaliados, tampouco a idade da criança avaliada.

Em Psicologia, por exemplo, um questionário como esse não pode ser considerado como um instrumento de avaliação psicológica, pois para se avaliar um determinado comportamento será necessário utilizar vários instrumentos diagnósticos, considerando-se fatores essenciais como faixa etária, contexto social, diferentes versões sobre o caso, delimitando melhor o que se pretende avaliar.

NE - O Transtorno do Déficit de Atenção é sempre somado à hiperatividade ou podem acontecer de maneira isolada?

MP – Embora haja uma tendência de se acoplar as duas modalidades, segundo seus defensores, o transtorno pode ocorrer sem a hiperatividade e vice-versa.

NE – O TDAH não é doença?

MP – Partindo das evidências que são consideradas como critérios para a existência do TDAH, não podemos afirmar que seja uma doença, pois tais evidências são baseadas em comportamentos e estes se modificam à medida que o contexto, as relações, as situações e oportunidades se apresentam na vida de crianças, adolescentes e adultos.

NE – Como avaliar a questão da medicalização para o TDAH?

MP - Quando a criança, adolescente ou adulto é diagnosticado com o transtorno é prescrita uma droga “tarja-preta”, com graves efeitos colaterais, denominada metilfenidato, substância mais conhecida pelos nomes comerciais de Ritalina, Concerta e Vyvanse.

O metilfenidato é do grupo dos psicoestimulantes, ou seja, atua diretamente sob o sistema nervoso central. O medicamento libera maior quantidade de dopamina no organismo, uma das moléculas essenciais de sinalização do cérebro, associada à motivação e aos sentimentos de prazer. Quando prescrito para pessoas com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), a substância tem efeito calmante, fruto da toxicidade da medicação.

A ação do metilfenidato no organismo pode durar de quatro a doze horas, pois já se encontram versões do medicamento com efeito prolongado no organismo. O medicamento traz na própria bula a não recomendação para crianças antes de sete ou oito anos de idade. No entanto, a realidade da prescrição médica é outra. A medicação é prescrita para crianças muito pequenas, podendo trazer efeitos graves ao desenvolvimento.

Então, a falsa ideia de que a criança melhorou o comportamento por conta da substância é pelo simples fato dela estar com excesso de dopamina nas sinapses, o que dá uma sensação de saciedade do prazer. Esta droga pode apresentar graves efeitos colaterais tais como: perda de apetite, sonolência, taquicardia, dores no corpo e cabeça. De fato, a criança não apresenta nenhuma “melhora” no comportamento e sim sintomas do efeito do medicamento no organismo.

NE – Por que a tendência a medicar os casos de TDAH?

MP - Não podemos mascarar a forte pressão exercida pelos laboratórios farmacêuticos. Há um livro muito importante sobre o tema lançado há alguns anos nos Estados Unidos denunciando o marketing desenvolvido pela indústria farmacêutica assinado pela pesquisadora Marcia Angell. Os diagnósticos com medicação ganham força a partir do momento que a indústria farmacêutica endossa o medicamento como a saída para o problema, financiando, inclusive, pesquisas.

Temos a ideia de que as crianças têm que aprender a se comportar e esquecemos que para que isso ocorra é necessário ensiná-las. O comportamento é uma dimensão do desenvolvimento infantil que é aprendida, como tantas outras. O medicamento realmente vai trazer uma série de pontos positivos se a ideia for controlar os impulsos da criança. Mas a boa conduta ou comportamento aparente esconde os fortes malefícios da substância ingerida. A facilitação que se pretende a partir da medicação é uma falsa facilitação e leva à distorção do processo de aprendizagem de uma criança, do qual precisamos (nós, adultos) sermos mediadores.

Precisamos apoiar as crianças na convivência diária, orientando-as frente aos desafios, ensinando-as a como crescer, desenvolver-se e defender-se. A partir do momento que um medicamento interfere no comportamento, não está contribuindo para a aprendizagem. O que precisamos nos questionar é: que educação estamos oferecendo às novas gerações quando usamos a contenção química? Como aprenderão a lidar com os desafios da vida diária? Estamos alarmados com essa onda medicalizante. Grande parte do conhecimento da Psicologia centra-se nas teorias de aprendizagem e de desenvolvimento demonstrando que somos o que aprendemos.

E o que aprendemos ao tomar um medicamento para pretensamente focarmos a atenção e reduzirmos as ações motoras de uma criança?

NE - Os indivíduos vêm, cada vez mais, recebendo estímulos das mais diversas naturezas. Estamos conectados em grande parte do tempo a mais de uma fonte de informação. O próprio ambiente não pode então estimular o déficit de atenção e a hiperatividade? Como avalia esse cenário?

MP - Não podemos dizer que por termos muitos estímulos o tempo todos estamos sendo estimulados ao transtorno, mas sim a constituirmos uma atenção difusa. Hoje, cada vez menos se tem a atenção direcionada a uma única coisa. A comunicação estabeleceu novas maneiras de nos relacionarmos. Somos estimulados de diversas maneiras e isso não é uma patologia social. Por isso, não vejo isso com olhar para doença ou transtorno. São novas maneiras de relacionamento que estão postas para nós diariamente.

NE – Pais e professores têm de estar atentos a essa questão?

MP - Sim. O envolvimento e a participação dos pais e dos educadores é de extrema importância. Antes de tudo, precisamos romper com o círculo de culpabilização entre pais e educadores. A questão é: que criança queremos formar? Para que sociedade? Aquela em que somos todos iguais com comportamentos padronizados? Ou crianças criativas, desejosas do saber, instigadas pelo novo e pela diversidade? Quando uniformizamos o comportamento humano deixamos de construir nossa humanidade.

O adulto precisa assumir o seu papel de educador, de mediador entre a criança e a cultura, apresentando à criança o que há de melhor no seu contexto social. As crianças aprendem aquilo que apresentamos a elas como oportunidades. À medida que alçam autonomia podem trilhar novos caminhos e buscar outras fontes de informação. Não podemos deixar que os problemas humanos sejam apaziguados com medicamentos simplesmente. Temos que enfrentá-los e superá-los com os recursos que desenvolvemos nas áreas do saber e na prática social.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

“O LIVRO VERMELHO” Por Carl Gustav Jung


A Editora Vozes lançou o livro no Brasil traduzido para o português por Edgar Orth. A edição tem 4kg e custa mais de R$ 500. É possível ver um trecho em pdf aqui.
“Os anos durante os quais me detive nessas imagens interiores constituíram a época mais importante da minha vida. Neles todas as coisas essenciais se decidiram. Foi então que tudo teve início, e os detalhes posteriores foram apenas complementos e elucidações. Toda minha atividade ulterior consistiu em elaborar o que jorrava do inconsciente naqueles anos e que inicialmente me inundara: era a matéria-prima para a obra de uma vida inteira.” ~ C.G. Jung (1975)
O trecho abaixo segue o molde de alguns contidos no livro, com estilo ao mesmo tempo narrativo e auto-reflexivo, contendo descrições de imagens do interior e imediatas traduções e conclusões sobre seus efeitos na vida do indivíduo. O trecho abaixo não faz parte da edição brasileira citada acima, foi traduzido livremente da edição inglesa.
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O LIVRO VERMELHO” (trecho)
Por Carl Gustav Jung
“O diabo é a soma da escuridão da natureza humana. Aquele que vive na luz se esforça para ser a imagem de Deus; aquele que vive na escuridão se esforça para ser a imagem do diabo. Pelo fato de eu querer viver na luz, o sol desapareceu pra mim quando eu toquei as profundezas. Era escuro e aquilo parecia uma serpente.
Uni-me com aquilo e não o subjuguei. Tomei pra mim a parte da humilhação e subjugação, e assim incorporei a natureza da serpente. Se eu não tivesse me tornado com a serpente, o diabo, a quintessência de tudo que é ‘serpenticice’, teria mantido esse poder sobre mim. Isso teria dado ao diabo meu pulso e ele teria me forçado a fazer um pacto com ele, da mesma maneira como ele astuciosamente enganou Fausto. Mas me antecipei a ele me unido com a serpente, assim como um homem se une a uma mulher.
Então tirei do diabo a possibilidade da influência, que só pode passar através da própria ‘serpenticidade’ de nós mesmos, e que nós frequentemente relegamos ao diabo ao invés do próprio Mefistófeles ser Satã, tomado com minha ‘serpenticidade’. O Satã é a própria quintessência do mal, nu e por isso sem sedução, sem nem mesmo esperteza, mas pura negação sem força de convencimento. Assim eu resisti à sua influência destrutiva, peguei-o e segurei-o firme. Seus descendentes me serviram e eu os sacrifiquei com a espada.
E assim construí uma estrutura firme. Através dela ganhei estabilidade e longevidade e pude suportar as flutuações do pessoal. E então o imortal em mim está salvo. Atraindo a escuridão do meu outro mundo para dentro do dia, esvaziei meu outro mundo. Assim as exigências dos mortos desapareceram, assim que foram sendo satisfeitas.
Não sou mais ameaçado pelos mortos, desde que aceitei suas exigências e assim aceitei a serpente. Mas por causa disso também botei algo dos mortos no meu dia. Mas foi necessário, uma vez que a morte é a coisa mais duradoura de todas, aquilo que não pode nunca ser cancelado. A morte me dá durabilidade e solidez. Todo o tempo que quis satisfazer somente minhas próprias vontades, eu era pessoal e por isso vivia no senso do mundo. Mas quando reconheci as exigências dos mortos em mim e as satisfiz, entreguei meus esforços pessoais anteriores e o mundo teve que me aceitar como um homem morto. Um enorme frio vem para aqueles que no excesso de seus esforços pessoais reconheceram as exigências dos mortos e buscam satisfazê-las.
Enquanto ele se sente como se um veneno misterioso tivesse paralizado a qualidade de vida de suas relações pessoais, as vozes dos mortos permanecem silenciosas no seu outro mundo; a ameaça, o medo, e a ansiedade cessam. Tudo o que anteriormente aparecia faminto nele não mais vivia nele no seu dia. Sua vida é maravilhosa e rica, já que ele é ele mesmo. Mas aquele que sempre só quer a graça dos outros é feio, porque ele mutila a si mesmo. Um assassino é aquele que quer forçar os outros à bem-aventurança, uma vez que ele mata seu próprio crescimento. Um tolo é aquele que extermina seu amor por causa do amor. Esse é pessoal para o outro. Seu outro mundo é cinza e impessoal. Ele se força sobre os outros, e por isso é amaldiçoado a forçar ele mesmo sobre ele mesmo em um nada frio. Aquele que reconheceu as exigências dos mortos baniram sua feiúra do outro mundo. Ele não se impõe forçosamente sobre ninguém, e vive sozinho na beleza e fala com os mortos. Mas chega o dia quando as demandas dos mortos também são satisfeitas.
Se então perseveramos na solidão, a beleza se apaga para dentro do outro mundo e a terra perdida aparece nesse lado. Uma fase negra aparece depois da branca, e Paraíso e Inferno estão pra sempre lá.”
~ Carl Jung, Livro Vermelho “Red Book” (pgs 322-323)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Os movimentos do Coração


Escrito por Karina Paitach

A Terra vive do amor que o Céu tem por ela. Assim começa o preâmbulo do Livro Os Movimentos do Coração – Psicologia dos Chineses sobre o qual gostaria de falar um pouco.
Na cultura chinesa o Céu e a Terra se encontram.  Este “ponto de encontro” é o coração do homem. É o vaso sagrado que por natureza é vasto como o Céu e também a terra sagrada dentro de cada um. Por este motivo o coração é o centro das atenções no que diz respeito a nossa psicologia.
Sendo cada um deles, o Céu e a Terra, operadores da vida, vamos falar sobre a Virtude do Céu, o Sopro da Terra e os Espíritos que são os mensageiros da Virtude do Céu. Teremos também que revelar os três Tesouros se quisermos entender os seres humanos e por fim chegarmos aos Cinco Espíritos; que são a finalidade desta coletânea de textos.
Podemos dizer que o Céu é o que se manifesta como nossa própria natureza, que é a autenticidade do nosso agir. E o coração abriga o Céu e é sua morada, pois ele é capaz de receber o dom de reconhecer a justeza e a autenticidade das condutas.
O que recebemos do Céu nos marca ativa e constantemente; daí se originam todas as condutas do indivíduo. Já os Espíritos são da mesma qualidade da Virtude do Céu só que um pouco mais específicos. Assim são retratados os Espíritos: “A Virtude, assim como os Espíritos, é luminosidade irradiante. É a Luz que ilumina tudo que vem a este mundo...”. Os Espíritos advêm em nós, repletos de luz, manifestam a virtude e a trazem para nós”.
A Terra em nós é aquilo que recebe e carrega a virtude, dando-lhe formas. A Terra é uma grande provedora de formas definidas onde ficam abrigados os dons do Céu. Mas antes de falar em ‘forma’ devemos falar sobre a forma sem forma, ou seja, aquela que aceita se tornar todas as formas: o Sopro e só ele é que pode ser verdadeiramente oposto, contrastado, complementar e compenetrado para e pela imensa Virtude do Céu.
E é a partir deste nível que nasce o YIN/YANG, pois agora existem dez mil seres. De um Sopro único e universal nasce a multiplicidade.  Quando falamos em sopros falamos no conhecido Qi e é por meio dos sopros ou Qi que tudo se faz, mantem e anima a Vida.
Agora que já entendemos sobre o Céu e a Terra, o que nasce deste cruzamento, ou melhor, o que nasce deste abraço são os seres viventes, portanto: “não há vida senão através dos sopros yin/yang, submetidos à ação própria da Terra, individualizados pelo Céu”.
Temos a tríade perfeita – CÉU – TERRA – VIDA, podemos falar um pouco sobre nós Humanos. No entanto o que nos difere, seres viventes, dos outros milhares de seres. O que temos de único? Aqui nasce o que é conhecido por Os três Tesouros.
Agora peço sua atenção: para que os viventes surjam deve haver uma revelação! Eis aqui o que é conhecido como Essências ou Jing o primeiro tesouro. O Jing é nossa energia constitucional e física o que nos torna viventes é o enraizamento de tudo o que existe – o elo biológico. Herdamos dos nossos pais e é o que nos liga ao mundo animal. Sendo assim os instintos de sobrevivência, a agressividade e a necessidade de nos ligarmos aos outros, estão ligados ao Jing.
Mas sabemos que nós não estamos ligados apenas ao reino animal, mas sim com todo Universo e esta ligação se dá através do Qi ou os sopros. Como mencionado anteriormente é ele que dá origem a todas as formas, portanto somos todos UM através do Qi, o segundo tesouro.
O terceiro e último tesouro é o que nos torna HUMANOS, o que nos diferencia e nos torna únicos no universo. Shen ou Espírito é o que não compartilhamos com os animais. Foi o Céu que nos concedeu. Os três tesouros refletem a tríade perfeita, sendo o Jing nosso elo biológico com os outros animais, portanto está ligado a Terra, o Qi que compartilhamos com os dez mil seres e o Shen é a dádiva única concedida pelo Céu.
Temos mais revelações para fazer, a revelação dos Espíritos e esta se dá do encontro entre duas essências. O casal primordial, já falamos sobre eles, O CÉU/TERRA, os outros casais apenas reproduzem esta imagem, como por exemplo: YIN/YANG – MACHO/FÊMEA, etc.
Os Espíritos são o Céu em nós, nos conduzindo e trazendo sua mensagem. Shen é enraizado, fixado através das essências, está muito além delas mas opera e se manifesta através delas. Como tudo tem uma raiz, um lugar de onde emana uma radiancia luminosa assim também tem, como sua primeira morada, o Coração – Morada do SHEN. Aqui entendemos porque do brilho dos olhos, a luz espiritual que é conhecida como emanação luminosa simbolizando saúde e vivacidade.
É a partir do Coração, os Espíritos irradiam até os mais remotos recônditos do ser; eles estão em toda parte, nos Zang (órgãos), no mental, em todo o lugar onde a animação vital se manifesta. Para sua manutenção precisamos proporcionar um coração sereno e disponível. Disponível quer dizer um Coração vazio no seu mais alto grau de significado.
Embora o Espírito - Shen seja indivisível e inominável, mistério último, podemos particularizá-lo de acordo com suas moradas. Sabemos também que ele habita todos os lugares, mas vamos falar de cinco, que estão relacionados a cinco órgãos Yin ou Zang e que são a finalidade destes textos.
Primeiro devemos abordar é Espírito na sua manifestação mais Yang o chamado HUN que habita o Fígado e está em ressonância com o elemento Madeira. O aspecto mais Yin doShen conhecido como PO que está relacionado com o órgão Pulmão e está em ressonância com o movimento Metal, mas este deixaremos para o nosso próximo encontro.
Shen se expressa através dos órgãos (Zang – Yin) e vísceras (Fu – Yang) sob cinco formas, também chamadas de “Alma dos Zang-Fu” que remonta a ideia de morada dos Espíritos no nosso corpo.

HUN - ALMAS ESPIRITUAIS
Para nós ocidentais Hun é o que chamamos de “alma” ou “espírito” da pessoa. Podemos chamar de almas espirituais, espírito que raciocina - mas chamaremos de HUN.
Hun como um movimento Yang tende a subir, elevar-se e ele precisa que algo o entesoure - o seu enraizamento acontece no Fígado impedindo seu impulso em direção ao Céu.
Pensando em ressonância, lembrando que a sabedoria dos orientais se espelhou na natureza para desenvolver toda sua filosofia e medicina; quando desenvolveram o conceito de movimento Madeira estavam falando sobre a força do nascer das plantas, que se movem em direção ao Céu e isso acontece na Primavera estação que representa o desabrochar de tudo. O fígado yin com seu parceiro yang a Vesícula Biliar formam o par de órgãos (YIN/YANG) do movimento Madeira.
Este sistema Fígado/Vesícula Biliar, fisiologicamente falando (na visão da MTC) é responsável por armazenar e regularizar a saída de sangue de acordo com os diferentes estados fisiológicos. É ele quem “comanda o mar do sangue”. Nutre os tendões e músculos já que eles são alimentados pelo sangue. Todas as funções são geradoras dos nossos movimentos o que deixa claro sua ressonância com a Madeira.
Outra manifestação do Hun é através da emoção ressonante – Raiva no sentido de impulso para a realização. É uma força dinâmica que desencadeia os impulsos necessários para empreender uma ação.  Como controla a imaginação, desempenha um papel essencial em todo ato de criação, permitindo a elaboração de uma estratégia.
Hun descontrolado gera a ira, a fúria que nos torna cegos de raiva. Os planos futuros e a criatividade perdem sua fonte de estímulo e o nosso sono se torna agitado. O Coração será muito afetado neste desequilíbrio, pois não é ele um músculo? E também não é ele a primeira morada do SHEN?
Cada sistema no homem tem sua singularidade e atividades que lhes são próprias no metabolismo energético, mas todos são de igual importância na manutenção do equilíbrio. As atividades humanas sejam elas mentais, emocionais, fisiológicas, espirituais ou sociais não são nada além das expressões múltiplas de um mesmo princípio geral, que é a transformação e o fluxo da energia e a manutenção disso depende de uma moradia tranquila para os espíritos, o coração sereno.

(*) Texto Introdutório - No próximo texto falaremos sobre PO – Alma Vegetativa e o Movimento Metal.

Referencia Bibliográfica:
Elisabeth Rochat de La Vallee e Claude Larre. Os Movimentos do Coração: Psicologia dos Chineses.
Belo Horizonte: s.e., 2004. Tradução de Nicole Mir.
Wang. Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo. Editora Icone, 2001.